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Marketing

O Brasil já usa IA para criar. O desafio agora é transformar criação em processo

Novos dados da OpenAI mostram o destaque brasileiro no uso multimídia do ChatGPT. Para empresas, a oportunidade não está apenas em gerar imagens, vídeos ou apresentações, mas em conectar essa capacidade espontânea a objetivos, critérios, direitos, revisão e aprendizagem.

10 min de leitura7 de agosto de 2026
Equipe brasileira conecta celular, câmera, tablet e edição visual em um processo colaborativo de criação multimodal com inteligência artificial

A mudança aparece no que as pessoas pedem para a IA

Em 6 de agosto de 2026, a OpenAI publicou pela primeira vez dados por país sobre a forma como pessoas utilizam o ChatGPT. O retrato revela uma passagem importante: a inteligência artificial está deixando de ser apenas um lugar para buscar respostas e se tornando um ambiente no qual usuários produzem, analisam e executam tarefas.

No trabalho, segundo a empresa, as pessoas são mais de duas vezes mais propensas a usar o ChatGPT para concluir uma tarefa ou criar algo do que fora do contexto profissional. A categoria inclui atividades como escrita, programação, edição e análise. Fora do trabalho, perguntas e busca de esclarecimentos ainda ocupam uma parcela maior das interações.

Esse movimento muda a conversa empresarial. A questão já não é somente se trabalhadores conhecem uma ferramenta de IA. É como uma habilidade que nasce de modo individual, muitas vezes fora dos processos formais, pode se transformar em capacidade coletiva sem perder velocidade, autoria e responsabilidade.

O dado descreve comportamento, não resultado. Ele não prova que toda tarefa foi bem executada, que houve produtividade ou que a empresa recebeu valor. Sua utilidade está em mostrar onde a adoção está começando: na ação concreta de pessoas que tentam fazer alguma coisa com a tecnologia.

O Brasil aparece onde a IA deixa de caber na caixa de texto

O aspecto mais próximo da realidade brasileira está no uso multimídia. A OpenAI informa que geração, análise e recuperação de mídia representam 7,8% das mensagens classificadas globalmente. No Brasil e na Colômbia, mais de uma em cada dez mensagens já pertence a essa categoria.

Multimídia reúne atividades diferentes. Uma pessoa pode criar uma imagem, interpretar uma fotografia, trabalhar com áudio, revisar um vídeo, compreender um documento visual ou combinar formatos na mesma tarefa. Portanto, o número não deve ser lido apenas como crescimento da produção de peças bonitas.

Ele aponta para uma interação mais próxima da linguagem cotidiana de pequenos negócios, profissionais autônomos e equipes de marketing. Uma loja pensa em vitrine e produto. Um restaurante trabalha com cardápio, fotografia e redes sociais. Uma consultoria combina apresentação, documento e reunião. Um prestador de serviços registra o antes e o depois do trabalho.

Quando a IA alcança imagem, áudio e vídeo, ela se aproxima de atividades que já acontecem no celular. Isso reduz a distância entre experimentar uma tecnologia e aplicá-la em uma necessidade real, mas também aumenta a importância de organizar o que acontece depois da primeira criação.

Criar mídia ainda não é ter estratégia de conteúdo

A facilidade de produzir pode confundir volume com direção. Gerar mais imagens, legendas ou vídeos não garante que uma marca esteja se comunicando melhor. Sem objetivo, público, contexto e critério, a inteligência artificial apenas acelera uma produção que talvez já fosse dispersa.

Estratégia começa antes do prompt. A empresa precisa definir qual problema de comunicação pretende resolver, que ação espera do público, qual mensagem sustenta sua posição e quais elementos da identidade não podem ser diluídos. A ferramenta entra depois para ampliar possibilidades, testar abordagens e reduzir o atrito entre ideia e execução.

Também é necessário distinguir variação de incoerência. Uma marca pode adaptar linguagem, formato e ritmo para diferentes canais sem parecer uma empresa diferente a cada publicação. Para isso, referências visuais, princípios de voz, exemplos aprovados e limites precisam estar disponíveis durante a criação.

O trabalho de marketing muda de produzir cada peça manualmente para desenhar um sistema de decisões. A equipe continua criando, mas passa a dedicar mais atenção ao briefing, à seleção, à revisão e à relação entre o conteúdo e a jornada do cliente.

Do pedido isolado ao fluxo editorial

Um uso individual costuma terminar quando o arquivo parece pronto. Um processo empresarial precisa continuar. A peça deve receber um nome, uma finalidade, uma origem, uma autorização e um responsável pela aprovação. Depois da publicação, a organização precisa saber qual versão foi usada e quais materiais podem ser reutilizados.

O fluxo pode ser simples. A equipe registra o objetivo, reúne referências próprias, cria alternativas, compara com critérios definidos, revisa fatos e direitos, adapta ao canal e guarda a versão final. Não é necessário transformar toda criação em burocracia. É necessário impedir que decisões importantes desapareçam no histórico de uma conversa.

Essa estrutura permite aprendizagem. Se uma peça precisou de muitas correções, a equipe pode identificar se o problema estava no briefing, nos dados, nas referências ou na avaliação. Se um formato se tornou recorrente, o processo pode ganhar um modelo reutilizável sem congelar a criatividade.

A maturidade não aparece quando todos usam a mesma ferramenta. Ela aparece quando diferentes pessoas conseguem produzir com padrões compreensíveis e quando a organização aprende com o que foi criado, aprovado, rejeitado e corrigido.

Uso individual e adoção empresarial não são a mesma coisa

Os dados da OpenAI refletem mensagens enviadas por contas Free, Go, Plus e Pro, geralmente administradas por indivíduos. Eles não representam diretamente implantações corporativas nem descrevem políticas internas, integração com sistemas ou qualidade dos resultados. Essa delimitação é essencial para não transformar comportamento de usuários em diagnóstico automático das empresas.

A pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br, ajuda a observar o outro lado. Entre empresas brasileiras com mais de dez pessoas ocupadas, 17% declararam utilizar algum tipo de inteligência artificial. Nas pequenas empresas cobertas pela pesquisa, a proporção chegou a 15%, enquanto nas grandes alcançou 50%.

As duas fontes medem universos diferentes e não devem ser combinadas como se fossem uma única série. Juntas, porém, sugerem uma tensão relevante: pessoas podem desenvolver hábitos de criação com IA mais rápido do que as organizações conseguem transformar esses hábitos em processos reconhecidos, seguros e compartilhados.

Essa distância pode produzir inovação espontânea, mas também retrabalho, arquivos sem origem, uso indevido de dados e decisões sem responsável. A resposta não é bloquear toda experimentação. É criar um caminho para que a prática real informe a governança.

Pequenos negócios precisam de um método leve

A OCDE destaca que pequenas e médias empresas seguem trajetórias diferentes de adoção conforme maturidade digital, complexidade do uso e alcance da aplicação. Conectividade, dados, capacidade computacional, competências e financiamento formam condições importantes, mas o ponto de partida pode ser um problema bastante específico.

Para uma equipe enxuta, o melhor primeiro processo não é necessariamente o mais sofisticado. Pode ser a transformação de uma pauta em versões para diferentes canais, a organização de fotografias de produtos, a criação de uma apresentação comercial ou a análise de dúvidas recorrentes de clientes.

O Sebrae Rio reúne usos acessíveis em automação de tarefas, análise de dados, conteúdo, atendimento e gestão. Essa variedade ajuda a mostrar que a IA não precisa entrar no pequeno negócio como um projeto separado da operação. Ela pode começar em uma rotina que já consome atenção e possui uma entrega observável.

Método leve significa ter poucas regras que realmente são usadas. Qual informação não pode entrar na ferramenta? Quem confere fatos? Que materiais pertencem à empresa? Quando é preciso autorização de uma pessoa retratada? Onde fica a versão aprovada? Essas perguntas cabem em uma página e evitam muitos problemas.

A competência mais valiosa é saber avaliar

A expansão da criação multimodal aumenta a demanda por julgamento. Quanto mais alternativas a IA produz, mais importante se torna reconhecer se uma imagem representa corretamente o produto, se um vídeo respeita a identidade da marca e se uma adaptação mantém o sentido da mensagem.

A OCDE ressalta que as competências relevantes para a IA não se limitam à programação. Uso e interpretação de dados, resolução de problemas, criatividade, comunicação e gestão permanecem importantes. Para equipes de marketing, isso significa que formação não pode ser reduzida a aprender comandos.

Uma capacitação útil trabalha com exemplos reais da organização. A equipe compara resultados, identifica erros, discute direitos, registra critérios e melhora o briefing. O aprendizado acontece no encontro entre tecnologia, repertório profissional e responsabilidade pelo que será publicado.

Também é importante ensinar a interromper. Se faltam dados confiáveis, autorização, contexto cultural ou capacidade de revisão, a escolha madura pode ser não gerar, não publicar ou encaminhar a tarefa para outro processo. A IA amplia produção, mas não elimina a necessidade de dizer que uma peça ainda não está pronta.

Autoria, origem e direitos precisam acompanhar o arquivo

Conteúdo multimodal pode incorporar fotografias, vozes, estilos, documentos e dados de pessoas. A cada combinação, crescem as perguntas sobre consentimento, propriedade, privacidade e transparência. Resolver essas questões apenas no momento da publicação deixa a organização vulnerável a decisões que já foram tomadas durante a criação.

O processo deve registrar a origem dos materiais relevantes. Referências próprias precisam ser separadas de imagens encontradas na internet. Vozes e rostos exigem autorização adequada ao uso. Afirmações factuais precisam manter ligação com as fontes. Arquivos gerados devem ser identificados de maneira que a equipe não os confunda com registros documentais.

O framework de gestão de riscos de IA do NIST propõe governar, mapear, medir e administrar riscos. Aplicado ao conteúdo, isso significa entender o contexto antes de gerar, testar os resultados para o uso pretendido, definir responsáveis e acompanhar problemas depois da publicação.

Governança aqui não é um selo colocado ao final. É uma sequência de decisões que acompanha o conteúdo desde o briefing. Quanto mais integrada ao fluxo, menos ela depende de memória individual e menos aparece como uma barreira inesperada.

O que medir quando o resultado é conteúdo

Contar quantas peças foram geradas mostra atividade, mas não revela se a comunicação melhorou. Uma equipe pode produzir mais e, ao mesmo tempo, gastar mais tempo corrigindo inconsistências, buscando fontes e refazendo materiais que não deveriam ter sido publicados.

A avaliação deve começar pela finalidade. Se o objetivo era explicar um serviço, a organização pode observar se o conteúdo ficou compreensível e coerente com as dúvidas dos clientes. Se era adaptar uma campanha, pode verificar se identidade, mensagem e direitos permaneceram íntegros em todos os formatos.

Também vale acompanhar o processo: quantidade de revisões relevantes, causas de rejeição, reaproveitamento de ativos aprovados, incidentes de origem e tempo entre briefing e aprovação. Esses sinais não precisam virar uma coleção de métricas. Devem ajudar a identificar onde o sistema editorial aprende ou repete erros.

O uso responsável da IA não é aquele que elimina toda incerteza. É aquele que torna a incerteza visível o suficiente para que uma pessoa possa decidir antes que o conteúdo represente publicamente a empresa.

Conclusão

Os novos dados da OpenAI mostram que o Brasil participa de uma mudança importante na forma de usar inteligência artificial. A criação multimodal já ocupa espaço relevante nas interações, e o uso profissional se aproxima cada vez mais da execução de tarefas, não apenas da busca por respostas.

Para empresas, esse comportamento é uma oportunidade e um aviso. Existe criatividade distribuída, repertório e disposição para experimentar. Ao mesmo tempo, a capacidade individual só se torna ativo do negócio quando entra em um processo que preserva objetivo, identidade, direitos, fontes, revisão e aprendizagem.

Na minha visão, o Brasil pode transformar sua familiaridade com imagem, vídeo, voz e comunicação em uma vantagem real na adoção da IA. Mas essa vantagem não será construída pela quantidade de conteúdo gerado. Ela aparecerá quando conseguirmos ligar a criatividade que nasce no celular à disciplina necessária para representar uma marca, atender um cliente e tomar uma decisão.

A próxima etapa não é ensinar todo mundo a pedir mais coisas para a inteligência artificial. É ensinar equipes a escolher melhor o que merece ser criado, como deve ser avaliado e qual conhecimento precisa permanecer depois que o arquivo fica pronto.

Fontes e referências